O vigor que o mercado de trabalho demonstrou em março, com criação de vagas e aumento da renda real média da população ocupada – e que deve se repetir em abril, com números mais expressivos, de acordo com previsão do ministro do Trabalho e Emprego, Carlos Lupi -, mostra que as medidas de restrição ao consumo adotadas pelo governo para reduzir a atividade econômica, e desse modo aliviar a pressão sobre os preços, ainda não produziram os efeitos esperados. Esse quadro torna mais árdua a tarefa do Banco Central de buscar manter a inflação dentro dos limites fixados pela política de metas inflacionárias – e o fato de fazer isso praticamente sozinho, pois não conta com a colaboração de uma efetiva política de ajuste fiscal que reduza a demanda interna, torna sua tarefa mais complexa e mais desgastante politicamente.
Realizadas por órgãos diferentes, com abrangências diferentes e baseadas em metodologias diferentes, duas pesquisas mostram que março de 2011 foi um mês particularmente favorável para os trabalhadores. O mercado de trabalho continua vigoroso, sem registrar, pelo menos até agora, o impacto das medidas de contenção do crédito que o governo diz que colocou em prática em dezembro e da alta dos juros básicos iniciada pelo Copom em sua reunião de janeiro.
Esperava-se que, como consequência dessas medidas, os dados sobre emprego e renda nas seis principais regiões metropolitanas começassem a recuar. Não foi o que ocorreu. A Pesquisa Mensal de Emprego do IBGE mostrou que, em março, o desemprego nessas regiões metropolitanas foi praticamente igual ao de fevereiro (passou de 6,4% para 6,5%), mas caiu mais de 1 ponto porcentual em relação ao índice de março de 2010 (de 7,6%).
A renda do trabalhador continuou a crescer. O rendimento médio real habitual das pessoas ocupadas alcançou R$ 1.557, o valor mais alto para o mês de março desde 2002, com alta de 0,5% em relação a fevereiro e de 3,8% sobre março do ano passado. A massa de rendimento médio real habitual cresceu 0,8% em relação a fevereiro e 6,7% em relação a março de 2010.
Ao mesmo tempo que cresce a oferta, melhora a qualidade do emprego. “O mercado não só se formaliza, como também paga mais”, observou o gerente da Coordenação de Trabalho e Rendimento do IBGE, Cimar Azevedo, ao comentar os dados da pesquisa. “Há mais trabalhadores registrados, com rendimento mais alto.”
Outra pesquisa, com base nos dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho, constatou que, no mês passado, foram criados 92.675 empregos formais em todo o País. Março registrou um grande número de demissões (1,673 milhão de trabalhadores foram demitidos), pois esse é o mês em que muitas empresas dispensam os empregados temporários contratados para atender à demanda do fim de ano, mas registrou também um número grande de admissões (1,765 trabalhadores foram contratados), daí resultando o saldo positivo superior a 90 mil empregos. No primeiro trimestre foram criados 583.886 empregos formais, um resultado inferior ao de igual período do ano passado, mas ainda assim muito expressivo.
“Não vejo desaceleração na economia nem no mercado de trabalho ainda”, afirmou o ministro Carlos Lupi, ao comentar esses números, prevendo resultados melhores em abril. “Não teremos outro carnaval, com a economia quase paralisada por dez dias. Além disso, o comércio deve voltar a crescer e o fim das chuvas em algumas regiões também deve impulsionar a construção civil.”
Mais emprego e mais renda são muito positivos para os trabalhadores, mas impulsionam os preços, que já crescem ao ritmo de 6,3% ao ano. O governo Dilma não demonstra preocupação com o problema, o que o torna mais grave, pois essa atitude gera péssimas expectativas. Indica que o governo não está disposto a conter suas despesas de maneira a desaquecer a demanda interna e, assim, aliviar o peso da política monetária no combate à inflação.  (O Estadod e S.Paulo)

 

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